Catacrese: o que é, exemplos e diferença de metáfora

A catacrese é uma figura de linguagem (mais especificamente, uma figura de palavra) que ocorre quando emprestamos um termo já existente para nomear algo que não possui uma palavra própria no vocabulário da língua.

Trata-se de uma metáfora que se popularizou tanto com o tempo que perdeu seu sentido poético ou figurado original, transformando-se no nome comum e convencional do objeto ou ação.

No dia a dia, usamos a catacrese de forma natural e quase imperceptível, como ao falar em “braço do sofá” ou “pé da mesa”.

O que é catacrese?

O termo vem do grego katákhresis, que significa literalmente “abuso” ou “mau uso”.

Na prática linguística, no entanto, a catacrese não é um erro gramatical, mas sim uma solução criativa e necessária encontrada pelos falantes para suprir as lacunas do léxico (a falta de nomes específicos para certas partes de objetos, animais ou plantas).

Para resolver essa carência, a língua recorre a uma analogia formal ou funcional: busca-se um termo familiar do corpo humano, da natureza ou do cotidiano que guarde semelhança com a coisa a ser nomeada.

Por exemplo, um móvel de apoio não possui membros biológicos, mas apoia-se sobre quatro hastes verticais.

Por analogia direta aos membros inferiores do corpo humano, convencionou-se chamá-las de pés. Assim, surgiu a expressão “pé da mesa”.

Exemplos comuns de catacrese no cotidiano

A catacrese está presente em diversos contextos da fala diária. Veja os casos mais recorrentes organizados por categoria de uso:

1. Partes do corpo humano aplicadas a objetos

É o tipo mais frequente de catacrese na língua portuguesa:

  • Pé da mesa / pé da cadeira: as estruturas que sustentam o móvel.

  • Braço do sofá / braço da poltrona: as laterais de apoio para os braços.

  • Costas da cadeira: a parte do encosto.

  • Perna dos óculos: as hastes que prendem as lentes ao rosto.

  • Boca do fogão: os queimadores onde se acende a chama.

  • Boca do túnel / boca da garrafa: a abertura de entrada ou passagem.

  • Cabeça do prego / cabeça do alfinete: a extremidade achatada do objeto.

  • Coração da cidade: a região central ou de maior fluxo comercial.

  • Dente de alho: cada um dos gomos que formam a cabeça do alho.

2. Ações humanas e verbos emprestados

Ocorre quando verbos específicos têm seu sentido expandido para situações correlatas por falta de um verbo exclusivo:

  • Embarcar no trem / no ônibus / no avião: o verbo “embarcar” deriva etimologicamente de entrar em uma barca (embarcação marítima). Com o surgimento de novos meios de transporte, o verbo foi ampliado para aviões, trens e ônibus.

  • Aterrisar na água / na Lua: o termo deriva de terra. O correto para água seria amarar, e para a Lua, alunissar, mas o uso corrente adotou “aterrissar” de forma ampla.

  • Enterrar uma farpa no dedo: deriva de terra, mas aplica-se a qualquer introdução profunda na pele.

3. Elementos da natureza e culinária

  • Asa da xícara: a alça curva de sustentação.

  • Coroa do abacaxi: o conjunto superior de folhas do fruto.

  • Maçã do rosto: a região óssea e arredondada das bochechas (zigomático).

  • Fio de azeite: a quantidade contínua e fina do líquido ao ser despejado.

  • Leite de soja / leite de amêndoas: extratos vegetais que não derivam de glândulas mamárias de mamíferos, mas ganham esse nome pela cor e consistência semelhantes.

Diferença entre catacrese e metáfora

Compreender o limite entre essas duas figuras é um dos pontos mais cobrados em vestibulares e concursos:

Critério Catacrese Metáfora
Origem Nasce da carência lexical (falta de uma palavra específica). Nasce da intenção estilística, poética ou expressiva do autor.
Grau de novidade Cristalizada, comum e dicionarizada pelo uso popular contínuo. Inovadora, subjetiva e original.
Substituição Difícil de substituir por outro termo simples sem soar artificial. Fácil de substituir pelo termo literal correspondente.
Exemplo “Quebrei a asa da xícara.” “Seu olhar era um farol na tempestade.”
Explicação Não há outra palavra no dia a dia para a alça curva da xícara. O olhar não é fisicamente um farol; trata-se de uma imagem poética criada para guiar/orientar.

Em resumo: toda catacrese já foi, em sua origem histórica remota, uma metáfora. Quando a metáfora “morre” (perde o impacto da surpresa e vira convenção aceita por todos), ela se torna uma catacrese.

Exercícios resolvidos

Questão 1

(FUVEST/Adaptada)

Assinale a alternativa que apresenta uma catacrese:

a) Aquela mulher é uma flor delicada.

b) Sentou-se no chão, encostando a cabeça no pé da cama.

c) O vento sussurrava segredos pelas frestas da janela.

d) Ela chorou rios de lágrimas com a notícia.

e) O relógio da sala insistia em correr contra o tempo.

Resposta correta: B

Comentário: A expressão “pé da cama” é uma catacrese, pois utiliza o termo biológico “pé” por analogia de base/sustentação, na falta de um termo exclusivo. Nas demais alternativas temos: metáfora em A (“é uma flor”), personificação/prosopopeia em C e E (“vento sussurrava”, “relógio insistia em correr”) e hipérbole em D (“rios de lágrimas”).

Questão 2

A expressão “embarcar no avião” é classificada como catacrese porque:

a) Representa um exagero proposital na linguagem dos viajantes.

b) Consiste na troca do todo pela parte da aeronave.

c) Emprega um verbo originário do transporte marítimo para suprir a falta de um termo específico na aviação.

d) Transfere sentimentos humanos a um veículo mecânico inanimado.

e) Atribui um sentido pejorativo ao ato de viajar de transporte aéreo.

Resposta correta: C

Comentário: O verbo “embarcar” refere-se originalmente à ação de entrar em uma barca/embarcação. Com a evolução dos transportes, o vocábulo expandiu seu domínio semântico para outros modais (como o aéreo), caracterizando a catacrese verbal por extensão de uso.

Pedagogo, graduando em Direito, especialista em Docência para o Ensino Superior e em Educação de Jovens e Adultos. Pesquisador das relações de gênero e raciais, e apaixonado por justiça social. Criador do portal Toda Disciplina, onde compartilha conhecimento e debates sobre educação, direitos humanos e cultura.

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