O que é Umbanda? entenda a história, os guias e o que acontece em um terreiro

Muitas vezes confundida ou cercada de preconceitos, a Umbanda é, na verdade, uma das expressões mais ricas da cultura do nosso país.

Ela é considerada uma religião 100% brasileira, nascida da mistura de diferentes povos e crenças que formam a alma do Brasil.

Se você quer entender como a Umbanda surgiu, quais são seus pilares e por que ela é tão importante para a nossa identidade, continue lendo.

A origem da Umbanda em 1908

Diferente de religiões milenares, a Umbanda tem uma origem relativamente recente. Ela foi formalmente instituída em 15 de novembro de 1908, por intermédio de Zélio Fernandino de Moraes, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

Casa onde foi fundada a Umbanda, no bairro de Neves, em São Gonçalo, no RJ.
Casa onde foi fundada a Umbanda em 1908, em São Gonçalo (RJ), demolida em 2011. Foto: Roberto Moreyra/Extra

Segundo a história, Zélio, durante uma sessão espírita, recebeu a manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

O espírito anunciou que ali nascia uma nova religião: um espaço onde negros e indígenas (que muitas vezes eram rejeitados em outros centros na época) poderiam trabalhar e levar suas mensagens de caridade e luz.

No que acreditam os umbandistas?

A Umbanda é uma religião monoteísta. Ou seja, acredita-se em um Deus único e supremo, chamado de Zambi (ou Olorum).

Abaixo de Zambi, existem as forças da natureza personalizadas, os Orixás, e os guias espirituais que se comunicam com os fiéis através da mediunidade. Os princípios básicos são:

  • Caridade: Atendimento gratuito e ajuda ao próximo.

  • Fraternidade: Respeito a todas as outras crenças e pessoas.

  • Evolução Espiritual: A crença de que estamos aqui para aprender e melhorar.

As linhas de trabalho: os guias da Umbanda 

O que torna a Umbanda muito próxima do povo são as suas “Linhas”. Durante as sessões (chamadas de Giras), os médiuns incorporam espíritos que representam arquétipos da nossa história:

  1. Caboclos: Espíritos de indígenas, que trazem a força da natureza, a cura e o conhecimento das ervas.

  2. Pretos-Velhos: Representam os antigos escravizados; são símbolos de sabedoria, paciência e acolhimento.

  3. Erês (Crianças): Trazem a energia da alegria, da pureza e da renovação.

  4. Baianos, Marinheiros e Boiadeiros: Outras linhas que refletem a diversidade do povo brasileiro.

Como funcionam as Giras de Umbanda?

A Gira é o nome dado às sessões ou reuniões rituais onde os trabalhos espirituais acontecem. Imagine a gira como uma grande corrente de energia onde tudo — desde a música até o cheiro das ervas — tem um propósito específico.

Imagem mostra um gira em um terreiro de Umbanda no Rio de Janeiro.
Imagem mostra um gira em um terreiro de Umbanda no Rio de Janeiro. Foto: Bruno Gonzalez/Agência O Globo.

Embora cada terreiro possa ter suas particularidades, o roteiro de uma gira geralmente segue estes passos:

  • Abertura e Defumação: O ritual começa com orações e a queima de ervas (defumação). O objetivo é limpar o ambiente e as pessoas de energias negativas, preparando o espaço para a chegada dos guias.

  • Pontos Cantados e Atabaques: A música na Umbanda não é apenas um adorno. Os “pontos” são cânticos sagrados acompanhados pelos atabaques (tambores). Eles servem para saudar os Orixás e criar a vibração necessária para a incorporação dos guias.

  • Incorporação: É o momento em que os médiuns da casa recebem as entidades (como Pretos-Velhos ou Caboclos). Cada linha tem seu jeito de dançar, saudar e se comportar.

  • O Atendimento (passes e consultas): Esta é a parte prática da caridade. O público (consulentes) pode conversar com as entidades para receber conselhos, orientações espirituais ou um “passe” — que é uma limpeza energética feita através da imposição das mãos e do uso de elementos como ervas, charutos ou água.

  • Encerramento: Após os atendimentos, os guias se despedem, os médiuns desincorporam e o dirigente do terreiro encerra os trabalhos com preces de agradecimento.

É um ambiente de muito respeito, onde a roupa branca é predominante para simbolizar a paz e a pureza de intenções necessária para o trabalho.

O que é um Terreiro?

O terreiro (também chamado de Centro, Tenda ou Templo) é o espaço sagrado onde acontecem as práticas da Umbanda. Mais do que apenas um espaço físico, ele é considerado a “casa” da família espiritual, um local de acolhimento e respeito.

Dentro de um terreiro, alguns elementos são fundamentais:

  • Congá: É o altar principal, onde ficam as imagens de santos, orixás e guias, servindo como o ponto de maior concentração de energia da casa.

Na Umbanda, o Congá é o altar principal do terreiro.
Na Umbanda, o Congá é o altar principal do terreiro. Foto: Reprodução/Internet
  • Tronqueira: Geralmente localizada logo na entrada, é o espaço dedicado à proteção do terreiro, guardado pelos Exus e Pombagiras.

  • Roncó: Um espaço reservado para rituais específicos e recolhimento dos médiuns.

  • Curimba: O local onde ficam os atabaques e os tocadores (ogãs), responsáveis pelo ritmo e sustentação vibratória da gira.

É comum que os terreiros sejam simples e acolhedores, reforçando a ideia de que o sagrado se manifesta na humildade e na união da comunidade.

O sincretismo na Umbanda

Um dos pontos que mais gera curiosidade é o sincretismo. Durante o período da escravidão, para que pudessem cultuar suas divindades sem serem perseguidos pela Igreja, os africanos associavam seus Orixás a santos católicos.

Por exemplo:

  • Ogum é associado a São Jorge.

  • Iemanjá é associada a Nossa Senhora dos Navegantes.

  • Oxum é associada a Nossa Senhora da Conceição.

Essa prática se manteve e hoje faz parte da beleza estética e cultural dos terreiros de Umbanda.

Atualmente, a Umbanda é reconhecida como Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro e de outras cidades. Além do amparo espiritual, os terreiros funcionam como verdadeiros centros de assistência social, promovendo doações, apoio psicológico e comunitário.

Conhecer a Umbanda é entender um pedaço fundamental da história do Brasil: uma história feita de mistura, resiliência e, acima de tudo, muita fé no ser humano. 

Atualizado por último em: 14/02/2026 às 13:28

Pedagogo, graduando em Direito, especialista em Docência para o Ensino Superior e em Educação de Jovens e Adultos. Pesquisador das relações de gênero e raciais, e apaixonado por justiça social. Criador do portal Toda Disciplina, onde compartilha conhecimento e debates sobre educação, direitos humanos e cultura.

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