Alzira Soriano: biografia da primeira prefeita da América Latina

Imagine o cenário: é 1928. Em quase todo o mundo, mulheres sequer podiam votar.

No Brasil, o coronelismo e o patriarcado ditavam as regras de forma absoluta.

Porém, em Lajes, pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte, uma viúva de 32 anos estava prestes a quebrar o teto de vidro da política mundial.

Luíza Alzira Teixeira Soriano não foi apenas a primeira prefeita do Brasil.

Ela foi a primeira mulher a ser eleita chefe do executivo em toda a América Latina.

Sua vitória, com 60% dos votos, foi uma notícia tão impactante que saiu até no jornal The New York Times.

Biografia

Nascida em Jardim de Angicos (na época distrito de Lajes) em 29 de abril de 1897, Alzira era filha de um importante líder político da região, o coronel Miguel Teixeira.

Sua vida pessoal foi marcada por um desafio precoce: ficou viúva aos 22 anos, grávida e com três filhas pequenas, vítima da Gripe Espanhola que levou seu marido.

Diferente do que se esperava das mulheres da época, Alzira não se recolheu. Ela assumiu o comando da fazenda da família e mostrou um pulso firme para a administração que impressionou os líderes locais.

A eleição histórica de 1928

O Rio Grande do Norte sempre foi vanguarda. Em 1927, o estado aprovou a Lei Estadual nº 660, que permitia o voto feminino (anos antes do Código Eleitoral Brasileiro de 1932).

Aproveitando essa brecha legal e com o apoio da feminista Bertha Lutz e do governador Juvenal Lamartine, Alzira foi lançada candidata à prefeitura de Lajes pelo Partido Republicano.

A campanha foi histórica. Os adversários diziam que “mulher não servia para governar”. Alzira respondeu nas urnas: venceu o pleito com 60% dos votos válidos, derrotando um conhecido coronel da região que, humilhado, abandonou a cidade.

Posse de Alzira Soriano na prefeitura de Lajes, junto com seu secretariado.
Posse de Alzira Soriano na prefeitura de Lajes, junto com seu secretariado. Foto: Reprodução/Rudolfo Lago

Ela tomou posse em 1º de janeiro de 1929, tornando-se uma celebridade política instantânea.

Revolução de 30

Como prefeita, Alzira foi moderna. Focou na construção de estradas, mercados públicos e na melhoria da iluminação a gás da cidade.

Ela nomeou um secretariado composto majoritariamente por homens, invertendo a lógica de poder da época.

Porém, seu mandato foi curto. Com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas, Alzira se recusou a apoiar a ditadura que se instalava e que nomeava interventores estaduais. Por manter seus princípios, ela perdeu o cargo.

A política, contudo, estava no sangue. Com a redemocratização em 1945, ela voltou à vida pública, sendo eleita vereadora por três mandatos consecutivos na UDN, chegando a presidir a Câmara Municipal de Jardim de Angicos.

Curiosidades e Legado

  • Pioneirismo em Dobro: O RN não teve apenas a primeira prefeita. A primeira eleitora (mulher a votar) do Brasil também foi potiguar: Celina Guimarães Viana, de Mossoró, que se alistou em 1927.

  • Na TV: Recentemente, na novela “Amor Perfeito” (Globo), a história de Alzira foi homenageada através da personagem interpretada pela atriz potiguar Titina Medeiros.

  • A Frase: Em seu discurso de posse, Alzira disse: “A scisão (divisão) entre os sexos, que a natureza não fez, e sim o atraso dos legisladores, caminha para a extinção.”

Pedagogo, graduando em Direito, pesquisador das relações de gênero e raciais, e apaixonado por justiça social. Criador do portal Toda Disciplina, onde compartilha conhecimento e debates sobre educação, direitos humanos e cultura.

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